sábado, 27 de novembro de 2010

Senhora das Flores


Conheci Dona Raimunda há alguns anos atrás, quando preparava o jardim de minha mãe. Um jardim quase destruído pelo avanço das construções da casa, mas que não deixei desaparecer, restando apenas dois retângulos de pouco mais de 2,5m. Adoro as plantas, flores, a natureza em geral, e não poderia ser diferente morando nesse maravilhoso mundo amazônico. Nós já tínhamos nos tornadas clientes em potencial de Dona Raimunda, hoje com 65 anos, moradora da cidade de Santana, mas nasceu em Breves no Estado do Pará, chegou à Macapá há 20 anos e há sete anos vendia mudas de plantas.

Dona Raimunda "A Senhora das Flores"

Uma vez por mês comprávamos suas mudas. Quando eu sentia que há algum tempo Dona Raimunda não aparecia, eu logo perguntava para minha mãe "Mãe a senhora das flores passou hoje?", era assim que eu a chamava. A Senhora das Flores caminhava quatro ou cinco vezes por semana para Macapá e andava pelas ruas da cidade oferecendo suas plantas de casa em casa.

Depois de três anos que eu estava morando fora do país, o jardim ficou sem cuidados e era visível que a Senhora das Flores não aparecia há tempos, pois ela sempre dava conselhos como tratar melhor das plantas, como e quando fazer a poda, os remédios para as pragas e como plantar. Certo dia a encontrei na esquina de casa e sugeri que ela me mostrasse suas novas mudas. Ela me acompanhou até em casa e dizia que tinha ficado sem vender havia algum tempo, pois minha mãe já não comprava mais plantas, e que esteve com problemas de saúde. Ela carregava uma sacola com dez mudas das mais variadas plantas, aproveitei para renovar o jardim e comprei novas mudas(fotos).

Novas plantas para o jardim

Quando ela chegava, sempre conversávamos, uma parada para um cafezinho e ela me contava sua história de vida, ou ao menos, uma pequena parte dela. Durante a conversa ela me contou que teve glaucoma e perdeu o olho esquerdo e já tinha várias vezes tentado pedir auxílio do poder público e não tinha conseguido. O custo do tratamento particular era alto, e que sua única renda era as vendas de suas mudas e alguns ‘bicos’ que sua filha fazia em casas de famílias. Ela usava óculos com um dos lados escuro para disfarçar a falta de seu olho esquerdo.

Foi um dia muito triste depois da notícia que a Senhora das Flores aos poucos estava perdendo sua visão, e que o olho direito já estava com os mesmos sintomas. A tristeza tomou conta de meus pensamentos e do meu coração e em meios às lágrimas pensei em ajudá-la a encontrar uma forma de amenizar seu sofrimento. Ela falou-me também de sua filha que era professora, mas que ainda não tinha emprego e que por isso ela ainda precisava da venda das plantas. Explicou-me também como fazia as mudas e que algumas ela conseguia através de visita em casas com grandes jardins. De repente, olhando para uma das plantas do jardim, que já estava murchando e perdendo seu brilho, ela aconselhou-me que eu deveria podá-la, pois assim, ela logo voltaria com mais força em seus galhos e folhas.

Ainda lembro minha primeira compra com ela, uma linda roseira da cor rosa choque. Era linda e como cresceu! Grandes cachos de rosas se formavam e ela impressionava pela altura e a quantidade de flores em seus ramos. Todos que a avistavam queriam uma muda dessa incrível roseira que durante anos embelezou nosso jardim.

Em sua partida para continuar suas vendas a Senhora das Flores me agradeceu a atenção e me abraçou dizendo:
“Minha filha agradeço de todo coração pela atenção que você me deu, não sei se teremos outro encontro como este. Acredito que logo terei que parar de vender minhas mudas, não consigo ver muita coisa e isso dificulta minhas andanças. Mas quero lhe desejar muita saúde e paz para toda família”.E a Senhora das Flores partiu!
Lembrei-me do Senhor das Rosas da cidade que moro na França, ele também adorava seu jardim, infelizmente hoje, depois de sua morte seu jardim desapareceu ficando apenas a lembrança para quem viu as maravilhosas cores e variedades das rosas que embelezavam seu jardim.

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