terça-feira, 27 de novembro de 2012

A escravidão continua..

Uma jovem do Quênia conta o seu calvário, fugindo de seu país, ela caiu em mão de escravistas. Ela foi doméstica na Arábia Saudita na casa de uma família real. Depois de três anos e dois meses de maus-tratos ela conseguiu escapar durante uma escala a Paris acompanhando a familia real em uma viagem. Relato de um inferno moderno...


"Eu tenho 29 anos e Maria não é meu verdadeiro nome, mais eu tenho medo de que me reconheçam. A maioria da minha familia não sabe nada do que acontecu comigo, eu não quero que eles sofram. Um dia eu tive sonhos. Eu gostariaa de estudar Direito ou de ser enfermeira e de ser uma mulher independente. Eu cresci na periferia de Mombasa, a segunda maior cidade do Quênia,. Vivíamos eu, meus dois irmãos e meus pais. Meu pai era mecânico, e minha mãe dona de casa. Meu pai não ganhava o suficiente para pagar meus estudos , então um dia descobri que ele tinha me prometido à um de seus amigos em troca de dinheiro. Foi assim que descobri que eu não teria um futuro como previa de seguir até a universidade. Meu futuro marido já tinha outras três mulheres e eu seria a quarta. Eu não queria essa vida, e assim decidir seguir outro caminho. Meu pai era um homem severo e que não poderia ser contrariado, ele aplicava sua lei segundo o que ele passou durante sua infância com seus pais violentos. Quando ele ficava bravo ele nos batia com um cano de borracha. Meu irmão mais velho se rebelou e deixou-nos para tentar a vida na capital, Nairobi. Eu vou parti também, eu que nunca sai de casa sozinha, vou decidir meu destino.
Uma de minha amigas trabalhou na Arábia Saudita. Ela pode me ajudar a encontrar um trabalho là, assim posso ganhar o suficiente para pagar meus estudos universitários. Sem dizer a ninguém eu preparo minha viagem. Uma familia procura um professor de inglês eles são parentes distantes do rei Fahd. Chamamo-os de principe e princesa. Eles são de acordo em pagar minha viagem e me fornecer um visa de estadia naquele país.
Eu faço minha mala com algumas roupas, eu pego meu passaporte que minha mãe guarda com os seus papéis de familia na gaveta de seu armário e eu deixo a casa sem deixar explicações. Pego um táxi até a capital e depois ao aeroporto, é a primeira vez que viajo de avião. Eu choro toda a viagem, meus olhos são vermelhos e inchados.
A Ryad um policial me pede meu passaporte. Eu abro minha bolsa e dou meu passe para o policial e ele dá a pessoa que vem me buscar no aeroporto um homem negro e alto. Ele não fala inglês, e ficamos durante todo o trajeto mudos até chegar na mansão. Eu olho pela janela e vejo a cidade completamente vazia. Eu penso em meus pais, e repito para mim mesma "Tu ganhas dinheiro  e tu voltas para o Quênia". Eu não sabia que estava chegando em uma prisão. Uma mulher me recebe e mostra meu quarto, um espaço separado da casa o qual devo compartilhar com uma moça filipina. Dois outros empregados dormem ao lado. Pero dos quartos um pequeno banheiro, sem janelas,  apenas uma pequena abertura para a climatização.
A casa é imensa. Os salões, os quartos, os sofas, os tapetes, os móveis séao intermináveis. Aqui vivem um casal  e seus sete filhos, quatro meninas e 3 meninos.A princesa me explica que que eu devo me ocupar deles e de suas filhas de 13 e 165 anos como uma mãe faria: lhes alimentar, les vestir, lhes acolpanhar  em todo o lugar; lavar e passar e estar à disposição durante 24 horas por dia.
Minhas jornadas começam às 5 horas da manhã. Eu preparo o café da manhã eu acordos e visto todos eles. Sim até mesmo os adolescentes.A primeira vez a mais jovem me disse " Coloca minhas meias, , rápido!". Em seguida nós partimos para a escola. A familia possui seis carros, mas somente o principe deve andar sozinho com o seu  motorista. Eu carrego as mochilas até a sala de aula de cada um, e após eu retonor para fazer a limpeza. Eu sei que logo a princesa chegará para fazer a inspeção passando seu dedo para ver se não existe mais poeira nos móveis. O mais terrível é lavar a roupa, para tirar o sabão sa maquina não faz então é a mão, demora horas e a água é glacial. A sala de lavar roupa é no alto  da casa e no inverno ela congela. No verão é tão quente que precisamos lavar a roupa de calcinha e sutiã. Nós não temos o direito de lavar nossas roupas na máquina da casa, devemos nos contentar com o lavabo. E quando o fazemos, uma das colegas de trabalho denuncia e a princesa nos pune.
Se uma das meninas tem um problema na escola, eu que devo ir resolver ir buscá-los e os levar ao hospital se o caso é sério. Os pais dormem ele acordam somente às 18horas e dormem ao amanhecer. Logo que seus filhos acordam. O príncipe dirige uma imobiliária, ele parte ao escritório logo após a oração da noite, ou seja 23horas e hora do jantar. Nós esperamos a nossa vez para jantar, somente apó que eles terminarem, isso se eles nos deixam os restos.
Eu fiquei três anos na casa deles, eu não poderia passar toda minha vila com eles.Nunca tive um dia de folga, ganhávamos cerca de 800 reais. Eu não tenho o direito de telefonar para minha família, as unicas saídas para comprar roupas, por exemplo, devem ser autorizadas pela princesa e somos sempre acompanhadas pelo mototista. As saídas são raras, cerca de duas vezes por ano. Outras oportunidades são quando vamos acompanhar a familia em viagens. E um sinal de riqueza de aparência para eles estarem acompanhados pelos empregados, os que não têm são mal vistos pelo povo. Eu encontro outros empregados eles me contam diversas histórias, e em uma delas de uma moça que se jogou do alto da casa. Ou ainda outra que deixou seu filho de três meses na casa dela sem esperança de revê-lo. E mais de uma patroa que exige de sua empregada que puxe a descarga do sanitário no seu lugar. Eu entendo que sem passaporte e sem dinheiro sou prisioneira aqui.
O pior momentos são as férias. As crianças ficam diretamente em casa. Uma delas dorme de dia e passe as noites na frente da TV, e eu devo acompanhá-la até o amanhecer sentada no chão , pois não tenho autorização de sentar no sofá. E mais sua irmã se levanta cedo, e eu não tenho tempo para dormir. Isso diverte a mais jovem que joga de propósito no chão seu refrigerante e diz "limpa!". Quando eles partem em viagem para Dubai, Jordânia, Egito nós vamos com eles sem saber por quanto tempo ficaremos. Isso nos deixa apreensivos pois eles não reservam quartos para os empregados  nós dormimos no chão ao pé da cama das princesas. Quando eles comem em restaurantes ficamos aguardandos os restos para que possamos nos alimentar. Muitas vezes nós levamos biscoitos nas valises e quando eles saem para passeios pela cidade nós vamos raramente. A maior parte do tempo nós ficamos nos hotéis trancafiados. 
Em outubro de 2008 a familia passa alguns dias em Geneva e decide ir até Paris. Nós pegamos o trem. Eu sou a unica doméstica a acompanha-los nessa viagem. Eu fico no quarto do hotel e passo a roupa de toda a familia. Um dia  que todos sairam o filho mais velho abre a porta e com um canivete e me estupra.
Desconcertada  eu fujo e ando pela cidade que não conheço. Ando mais rápido para ficar distante dessa família que me mata a cada dia. Eles esqueceram a porta aberta, então aproveitei para escapar dessa prisão, Longe da Torre Eiffel e com os olhos queimando de lágrimas eu não esqueço da direção que devo tomar e sigo o grande farol. Chego ao Trocadéro e me jogo em um banco chorando...eu não tenho nada, nem dinheiro, nem documentos. Uma mulher que passa pelo local se aproxima  e diz "O que se passa senhorita?. Eu não entendo francês. Em inglês ela me pergunta de onde eu venho. Ela me conduz até a embaixada do Quênia. Na Embaixada eles me colocam em contato com o Comitê contra a Escravatura Moderna (CCEM). Eu vou denunciá-los! Mas, me dou conta que não sei muita coisa sobre essa família de exploradores, nem mesmo o endereço ou o numero de telefone. Eu não conheço o nome do hotel onde estavam hospedados, ou onde eles farão a futura destinação. Eu sei que eles não serão jamais indiciados, pois são membros de uma familia real...por enquanto nada aconteceu.
Eu quero virar a página. Eu poderia voltar para o Quênia, recomeçar a vida lá perto da minha familia, onde eu nunca deveria ter saído. Eu entrei em contato com meus pais e eles entenderam minha escolha de ficar em Paris. Eles não sabem de nada pelo que passei, nem do estupro, nem da escravagem, isso iria lhes machucar. Em 2011 meu pai faleceu. Eu gostaria de poder ter tido tempo de falar para ele que apesar de tudo eu o amava. Mas é tarde! Eu recomeço minha vida,  aprendi o francês e obtive um visa para ficar na França. Eu fiz uma formação e tenho dois empregos: reparo crianças e dou aulas de inglês a domicílio. Eu tenho um companheiro a pouco tempo, pois é difícil fazer confiança à um homem. Pela primeira vez de minha vida, mesmo que eu não tenha mais sonhos, eu me sinto livre."
Fonte: Le Nouvel Observateur 22 novembro 2012

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